dezembro
2009
22

Pra começo de conversa

Talvez a coisa que mais represente os novos paradigmas que irão nortear o próximo movimento humano sejam as fotos do Hubble. O Universo que elas mostram é inacreditavelmente diferente de tudo o que poderíamos imaginar. Imenso, extremamente diversificado, onde poderosas forças atuam desde a criação, formando estruturas que superam nossa capacidade de compreensão. É difícil aqui descrever sem acabar usando termos religiosos e isso não acontece por acaso.

O que leva milhões de seres humanos à realização de empreitadas como a construção de impérios e civilizações? Há os que acreditam que todos são simplesmente enganados pelos poderosos, sacerdotes, nobreza, capitalistas, políticos. Isso é bastante simples e fácil de entender. Existe no entanto algo em cada um de nós, uma crença, uma ilusão, que é capaz de fazer com que cada indivíduo aceite o lugar que lhe coube na aventura histórica. A idéia de que lá na frente está a satisfação de um desejo, de uma necessidade, seja ela real ou não. Toda a civilização se fez em torno de idéias e sentimentos capazes de aglutinar o movimento de vida de multidões de seres humanos durante inúmeras gerações. Contudo, aquilo que há de ilusório e fantasioso nessas projeções, de cada um, um dia acaba por se tornar visível. E com isso o amálgama que tornava possível andar na mesma direção se enfraquece, esfarela pouco a pouco, trazendo a inevitável decadência.

É interessante, porém, notar que as descobertas astronômicas já vem modificando nosso modo de ver as coisas, nosso mundo, desde há muito tempo. E isso trouxe mudanças concretas, palpáveis. A Terra redonda deu coragem aos homens para atravessar os oceanos e descobrir novos continentes. Fazer do planeta um só. Perceber que a Terra não estava no centro e, depois, perceber que mesmo o Sol não era o centro e, agora, perceber que não se pode saber ao certo se existe o centro, ou onde está. Coisas assim não se tornam claras em vão. Tudo o que formará a próxima caminhada e as próximas ilusões já vem aflorando há alguns séculos.

A ciência e a racionalidade foram o ápice da nossa era, que agora chega ao entardecer. No século XIX foi possível perceber, aos poucos, que não alcançaríamos a solução para os problemas crescentes através da tecnologia e do uso da razão. O esforço não havia sido suficiente. Grandes movimentos humanos surgiram então como fórmula para ainda assim tentar encontrar um meio de alcançar o que cada um via como um mundo melhor. Revoluções, grandes guerras, idéias radicais, novas igrejas, mais guerras… muita coisa foi tentada. Isso não deteve a decadência. Nem mesmo as descobertas científicas e tecnológicas. Sim, temos os computadores e a internet. Temos o Hubble voando sobre nossas cabeças fotografando o Universo. Mas já não conseguimos evitar a desagregação, a notória incapacidade de resolvermos as questões sociais, o consumo voraz dos “insumos” ambientais, a projeção das retas que nos mostram a falta de solução. Vivemos em casas gradeadas, em cidades cercadas de miséria. A África, os haitis, a periferia são abandonados à própria sorte. As metrópoles criam barreiras, tentando impedir o avanço da barbárie. O abismo entre os extremos cresce.

Apesar de não ter sido um assunto muito comum nos últimos anos, a idéia de uma Nova Era não pode ser descartada. Pelo contrário, hoje está mais evidente do que era nos anos 1960/70. As estruturas que o homem cria em sua caminhada não são flexíveis o bastante para suportarem as grandes mudanças que as novas visões de mundo, associadas à desilusão, trazem. Sim, há um desmoronamento perceptível. Na nossa esfera de existência não há nada que dure para sempre. Tudo brota, cresce, floresce e decai. Naturalmente. Para então fertilizar o que virá. Já há um mundo novo emergindo e um novo caminho nos espera. Não a mim, nem a você, pois são etapas que superam uma existência efêmera. Mas a nós. Uma caminhada menor termina, outra começa. A grande caminhada que fazemos desde o início, continua. Podemos então agir hoje com os olhos nisso que emerge. Nossas ações podem estar lastreadas nessa visão cósmica que o Hubble faz visível. Essa Nova Era já existe, embora ainda velada. Podemos escolher o Universo em que vivemos.

As fotos usadas foram baixadas do site da Nasa: www.nasa.gov/multimedia/imagegallery


3 respostas para “Pra começo de conversa”

  1. Eliana Leal disse:

    O texto e as fotos estão sensacionais. Que a Nova Era chegue de fato! Há muito, que o nós e o planeta estamos necessitando dela!

  2. Andrea disse:

    Excelente reflexão!!
    Ah, está ótimo o novo design do site, parabéns!!

  3. cleide parigros mendoza disse:

    nao conheço o assunto

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