fevereiro
2010
28

A Terra está no Céu

Terra no céu

No post Pra Começo de conversa o tema das novas visões do Universo trazidas pelas viagens espaciais e por imagens de regiões longínquas do cosmos foi abordado de maneira sintética.

Esse novo Universo que emerge traz consigo questões paralelas como, por exemplo, saber como ficam os conceitos de “para cima”, “para baixo”, etc., que somente possuem significado se acompanhados de um parâmetro de referência. Ao sairmos do planeta perdemos esse ponto de apoio. Passa então a ter mais sentido falarmos em “para frente” e “para trás”. Isso pode soar simplório, mas quando fazemos uma abordagem metafísica desses fatos, podemos concluir que os conceitos de Céu e de Terra também deixam de ter utilidade. É fácil para nós, hoje, sabermos que a Terra está no Céu. Que o céu tem muitas terras, muitas pedras se movimentando e girando, umas ao redor das outras, formando turbilhões de matéria que obedecem às forças magnéticas, espaço-temporais e sabe lá mais o quê.

Ora, o Céu sempre foi a morada divina. E a Terra o contraponto. Como ficamos?

As versões infantis da nossa origem e do nosso destino perdem valor. Nosso amadurecimento passa a ser uma imposição. Como se estivéssemos na adolescência da espécie, não temos a opção de não crescer. A criança em nós tem de encontrar o seu caminho de evolução, assumir mais responsabilidades, tornar-se o ser humano que o tempo e o lugar necessitam. O Deus pai cede ao Deus em mim.

Nossa religiosidade tem sido o elo cultural e histórico com aquilo que está além da nossa memória física, ou de nossa capacidade especulativa. Talvez nossa espécie ou a própria vida provenha, ou tenha alguma ascendência ligada às estrelas. Daí então essa compulsão humana em se sentir ligado ao Universo e às forças cósmicas, como uma lembrança gravada em nosso DNA. O certo é que sempre reconhecemos em algum elemento espacial o Ser que criou o mundo e a humanidade. O Sol, a Lua, o Pai que habita o Céu. No Oriente alguma “orientação”: Brahma respira a cada 4 bilhões e 320 milhões de anos. O mundo é composto de duas forças básicas, o Yin e o Yang, que combinadas geram tudo o que existe.

Respiração, duas forças antagônicas e complementares. Brahma é o Todo. Tao é o caminho ligado ao Absoluto. Nossa palavra ocidental Universo quer dizer “aquilo que tem somente um lado”, ou que contém os lados, a Unidade. Algumas correntes esotéricas utilizam números para definir as diferentes esferas da realidade universal, onde o 1 seria o estado primordial, antes do BigBang. O 3 a expansão, o momento neutro e a contração resultantes da explosão criadora. Esses movimentos iniciais geraram outros derivados, onde a matéria passa a girar em torno de outras matérias que giram em torno do núcleo universal. E daí a quantidade de leis também aumenta, os números incrementam. E por aí afora.

Bem, mas onde então encontrar o sentido da vida. Como responder às questões básicas: de onde viemos, por que estamos aqui, para onde vamos?

Talvez possamos ter mais confiança nos processos gigantescos que tiveram início muito tempo antes de sequer sermos um desejo, antes mesmo de existir o pó para onde um dia voltaremos. O Universo, o Todo, o Absoluto, o Altíssimo, esses nomes que demos à nossa percepção de algo que nos supera e do qual fazemos parte indissolúvel. Isso não está aí por acaso. Nem se trata de ter alguma razão para existir. Isso está. Somente está. E nós com Ele. Nada mais. Eu existo n’Ele. Ele vai, eu acompanho. Ele tem uma direção que se propaga no campo universal, como uma onda, se manifestando nas diversas camadas de acordo com as características de cada nível. Chegando a mim, me inclina, se traduz numa compreensão íntima do que devo fazer. Cada um de nós supre uma necessidade universal que se materializa no nascimento. Essa é a verdade individual. A essência divina que está dentro de cada um. Essa manifestação única do Universo em mim não está sujeita a padrões de julgamento humano. E não pode ser contida, sob pena de causar grave desarmonia no mecanismo cósmico.

Nossa vida está há muito tempo desligada desse caminho do Absoluto, da fé no grande ser universal. Por isso religião significa Religar, na acepção mais verdadeira da palavra (que não tem ligação com igrejas, ou com a “religião organizada”). Perdemos contato com nosso íntimo, com nossa essência, nosso insconsciente, e vivemos uma vida superficial e reativa, ligada às circunstâncias efêmeras do cotidiano. Construímos um jogo, ou porque não usar o termo hindu Maya (um teatro, a representação do mundo sob o véu da ignorância). Nosso jogo cresceu, se tornou Civilização, e alimenta nosso esquecimento de quem realmente somos e do que estamos fazendo aqui.

Já não é mais hora de buscar fora. Nossas viagens espaciais nos mostram que o que há lá é Infinito. E fica claro que não estamos desligados desse Todo. Somente dormimos um sono que nos afasta dessa verdade. O que existe lá, existe em tudo e existe em nós. Dentro de nós encontraremos as respostas e o caminho. Isso é crença. Isso é fé. A compreensão profunda, a convicção inabalável, de que não somos Eu, mas somos Ele. O Universo existe em nós, através de nós e de tudo o que há. E ao seguirmos nossas inclinações mais íntimas, nossa verdade interior, estamos fazendo a vontade do Universo e colaborando com sua Existência.


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