MOISÉS E O PASTOR

Certa vez, Moisés ouviu um pastor rezando assim: "Ó Deus, mostra-me onde estás, para que eu possa tornar-me Teu servo. Limparei Teus sapatos e pentearei Teus cabelos, coserei Tuas roupas e irei buscar leite para Ti". Ao ouvi-lo rezar dessa maneira insensata, Moisés repreendeu-o, dizendo: "Ó tolo!, embora teu pai fosse religioso, tu te tornaste um infiel. Deus é um Espírito, e não precisa desses cuidados grosseiros, como tu, em tua ignorância, supões". Envergonhado com essa censura o pastor rasgou suas vestes e fugiu para o deserto. Então ouviu-se uma voz do céu dizendo: "Ó Moisés, por que fizeste partir meu servo? Teu ofício é reconciliar meu povo comigo, e não afastá-lo de mim. Dei a cada raça diferentes costumes e formas de louvar-me e adorar-me. Não tenho necessidade de seus louvores, estando acima de toda necessidade. Não considero as palavras, mas um coração ardente. São várias as formas de mostrar-me devoção, mas se a devoção for sincera, elas são aceitas".

AS FORMAS RELIGIOSAS NÃO IMPORTAM

Uma voz veio de Deus a Moisés:
"Por que fizeste partir meu servo?
Vieste para levar os homens a se unirem a Mim,
E não para afastá-los de Mim.
Na medida do possível, não te ocupes em dividir;
'A coisa que mais me desagrada é o divórcio'.
A cada pessoa, destinei formas peculiares,
A cada uma, dei costumes particulares,
Aquilo que em ti é louvável, nele é repreensível,
O que é veneno para ti, para ele é mel.
O que é bom para ele, é mau para ti,
O que é belo nele, em ti é repulsivo.
Estou isento de toda pureza e impureza,
Não preciso da preguiça ou do vigor do meu povo.
Não criei os homens para tirar deles proveito,
Mas para verter sobre eles minha beneficência.
Nos homens da Índia, os hábitos da Índia são louváveis,
Nos homens da China, os da China.
Eu não sou purificado por seus louvores,
São eles que se tornam puros e brilhantes com isso.
Não considero o exterior e as palavras,
Considero o interior e o estado do coração.
Olho o coração, se ele é humilde,
Embora as palavras possam ser o inverso da humildade.
Porque o coração é substância, e as palavras, acidente.
Acidentes são só um meio, a substância é a causa final".

Extrato do Livro II - História VII - Masnavi, Rumi

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