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Um homem foi visitar a um derviche e lhe disse: - Eu quero discutir com você sobre meu problema. - E eu - disse o derviche - não o quero discutir. - Como você pode ser tão categórico se você não o conhece? - diz o visitante contrariado. - Então para que queres me submeteres um problema, se eu não conheço o problema e se eu não tenho mais percepções do que as outras pessoas? Nesse momento o visitante estava entre desconcertado e muito desejoso de saber mais: - Então diga-me qual é meu problema, isto me convencerá. - Oh, ser humano! - disse o derviche -, tu és quase que inteiramente atravessado. Se eu te provar que eu sei o que te preocupa, estarei desviando tua atenção para o “miraculoso”, e estarei sacrificando o Serviço, que é minha verdadeira tarefa, à representação teatral. - Bem! então dê-me somente a solução de meu problema. Você satisfará assim às exigências do Serviço. - Isto eu já fiz! - diz o derviche. - Não estou entendendo nada! - exclama o visitante -. Que eu saiba, você não me forneceu nenhuma solução. - Eh, bem, então vá buscar a resposta em outro lugar! Este homem, durante meses, percorreu o país e se entreteve com várias pessoas; ele não deixava nunca de lhes falar de seu encontro com o derviche. Um dia, ele começa a entrever que seu problema tinha sido sempre o egocentrismo, e que o derviche lhe havia indicado. Seu verdadeiro problema era este e não aquilo que ele havia imaginado. Pouco tempo depois, em uma cidade longínqua do local do primeiro encontro, ele se encontra face a face com o derviche. - Agora - disse ele ao derviche -, eu tomei consciência da sabedoria de tuas palavras, e estou buscando um meio de te retribuir pela ajuda que tu me aportastes. - Já está feito! - disse o derviche -. Ao falar com todo mundo da nossa conversa, você contribuiu, sem querer, à transmissão do ensinamento: não eras tu a ilustração viva da ignorância e da perplexidade? Sim, tu estavas como um homem que perambula com uma flecha cravada no crânio, que todos conseguiam ver exceto ele mesmo, e que era o único a atribuir sua dor de cabeça ao esforço que fazia em refletir. - Foi para isto que você serviu. Você acreditava e parecia querer se servir mas, na realidade, você servia a sabedoria, como mostrei. A sabedoria então se manifestou parcialmente, para te permitir ver um pouco melhor. - Entretanto tu não somente servistes a sabedoria, mas também à obsessão de si mesmo, não a você. Na verdade, qualquer um pode te incitar a servir a qualquer um ou qualquer coisa; basta para isto que ele te persuada que você está se servindo, adotando uma certa linha de conduta mas que na realidade serve a outros desenhos! Quem é o ganhador nesse negócio?
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