O Marzipã

Um dia, o califa Haroun-el-Rachid, conversando com um mestre, disse:

- Mestre, sabes que sou um buscador. Possuo tudo que quero, todas as coisas que a maioria dos homens trabalham para possuir. Por isso, deveria ter condições de aprender muito, uma vez que estou livre das preocupações que absorvem maioria das pessoas.

- Tudo deve ter uma base - disse o mestre. - Tens a base para o poder, para governar os homens, para a autosatisfação. Quando, porém, existe uma falta de bases essenciais, o homem não apenas não pode construir mas também, como tu, frequentemente pensa que já possui essa base.

- Então ensina-me - disse o califa.

- Primeiro te ensinarei a compreender corretamente a necessidade dessa base - disse o sábio -, de outro modo não aceitarás a própria base daqueles que sabem.

Recusou-se a falar mais, porque as coisas que estava prometendo só são ensinadas quando surge a oportunidade de ilustrá-Ias. Passaram-se vários anos antes que a ocasião se apresentasse.

Um dia o califa e o sábio estavam jantando quando Haroun disse:

- Um marzipã como este me parece um excelente exemplo de como as descobertas humanas, se são boas, se difundem por todo o mundo, beneficiando a todos.

- Oh califa -disse o sábio -, desde a invenção do marzipã já se passaram milhares de anos e, universalmente falando, as pessoas ainda não estão convencidas da excelência dele, além do mais, há muitos que nem sequer ouviram falar do marzipã.

Aborrecido com provocação tão evidente, o califa disse ao mestre:

- Dou-te um dia para justificar essa afirmação tão irresponsável. Encontra até amanhã à noite uma pessoa que não saiba o que é marzipã e traze-a aqui, ou te afastarei da minha companhia.

- Assim o farei -disse o sábio - e não por tua ameaça, mas porque esta é uma oportunidade para ilustração.

Na manhã seguinte, saiu às ruas de Bagdá e caminhou até se encontrar com um camponês vestido com muita simplicidade que, vagueando como se estivesse num sonho, levava um pedaço de pão na mão.

- Para onde vais e de onde vens? - perguntou-lhe o sábio.

- Não se aproxime! - exclamou o homem. - Ouvi falar de pessoas como tu que querem roubar meu pão.

- Ao contrário - disse o sábio -, quero te mostrar uma coisa deliciosa, muito melhor do que o pão.

- Por que quereria fazer isso? -perguntou o camponês.

- Para te ajudar a saber mais e para ajudar outra pessoa - disse o sábio.
Depois de muito tempo procurando convencê-lo, levou o camponês ao palácio. Este, quando viu os guardas com seus adereços resplandecentes, os vizires e as fontes de mármore, prostrou-se e gritou:

- Isto só pode ser um tempo e um lugar! Este é o dia da ressurreição e este é o salão do juízo de Deus Todo-Poderoso!

- Estás julgando tudo da melhor maneira que podes - disse o sábio - mas à incorreta.

E disse muitas outras coisas ao homem, que não fazia mais do que olhar para ele sem nada entender.

Quando se sentaram ao lado do califa, o sábio explicou que tinha trazido um homem que não conhecia o marzipã.

- Comprovaremos isso - disse o califa.

Dirigindo-se ao camponês, falou: - Que tens na mão?

- Comida - respondeu o homem.

0 califa fez um gesto e marzipã foi trazido.

- Isto é uma coisa nutritiva? - perguntou o califa.
- 0 sábio de nossa povoação - disse o camponês - sempre fala do que é nutritivo como sendo tâmaras, água e experiência. Conheço tâmaras e água, de modo que isso deve ser experiência.

0 sábio levantou-se.

- Oh califa! Este homem usa as bases de conhecimento de sua aldeia para explicar coisas que não pode entender sem explicações mais completas e experiências maiores. Não tem necessidade de marzipã. Se a tivesse, teríamos de dar-lhe mais informação, mais bases para compreendê-la.
De maneira semelhante, o homem sofisticado gosta de coisas, e até mesmo da promessa de coisas, que se desenvolvem sobre bases que ele não possui, ou que passam despercebidas em seu meio ambiente.

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